
Mudança de Carreira com Carolina Vila-Nova
Resumo do episódio 67 do AguiarDev Talks. Prefere assistir? Veja o episódio completo →
Tiago Aguiar e Rafael Peixoto recebem Carolina Vila-Nova, desenvolvedora de software no Mercado Livre, que deixou mais de 20 anos de carreira no jornalismo internacional para migrar para a tecnologia. A conversa reconstrói essa transição do início ao fim: o desgaste que motivou a saída, a capacitação formal escolhida no meio do caminho, os três anos até a primeira vaga e as diferenças de mentalidade entre as duas profissões.
O que foi discutido
- A trajetória de mais de 20 anos de Carolina como jornalista internacional, com passagens por redação, edição e correspondência
- O desgaste gradual que motivou a saída do jornalismo: sobrecarga, salário estagnado e impacto na saúde física e mental
- A escolha por um MBA em tecnologia e inovação e dois bootcamps, em vez de uma graduação tradicional
- Os três anos de tentativas até a primeira vaga, e a única entrevista técnica feita nesse período
- Os preconceitos de idade, gênero e origem profissional enfrentados na busca por oportunidade
- O choque de ritmo e linguagem ao aprender Go como segunda linguagem, logo após o treinamento em Java
- As diferenças de mentalidade entre jornalismo e desenvolvimento: competição versus colaboração
- Os planos de aprofundar em ciência de dados e o conselho final sobre IA generativa no mercado atual
Sobre Carolina Vila-Nova
Formada em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, com pós-graduação em Relações Internacionais e mestrado em política latino-americana, Carolina construiu mais de 20 anos de carreira no jornalismo — atuou como redatora, repórter, editora assistente, editora-chefe e correspondente internacional, cobrindo eventos na América Latina e na Europa. O primeiro contato com tecnologia veio ainda nessa fase, ao lidar com raspagem e análise de grandes volumes de dados do Congresso Nacional para investigações jornalísticas. Hoje atua como desenvolvedora de software no back-end do Mercado Livre, tendo entrado na empresa por um programa de bootcamp interno.
Principais pontos
A decisão de migrar amadureceu ao longo de anos, não da noite para o dia
Carolina descreve o início do processo como cheio de "falsos começos": o apego a uma carreira construída ao longo de décadas dificultava admitir que a mudança era necessária. O gatilho foi um desgaste acumulado — sensação de que a experiência não era mais valorizada, acúmulo de funções, salário estagnado e um impacto direto na saúde física e mental.
"Eu já sentia que a minha experiência não era tão valorizada, sentia que eu acumulava muitas funções, vivia muito estressada, o salário não acompanhava, então isso acabou tendo impacto óbvio na minha saúde física, na minha saúde mental" por Carolina Vila-Nova
Como única mantenedora da família, a estratégia de capacitação teve que ser prática
Carolina não podia aceitar uma remuneração de estágio, o que descartou a ideia de recomeçar com uma graduação tradicional. A alternativa foi investir em um MBA voltado a tecnologia e inovação para negócios — que funcionou como uma porta de entrada para entender o universo técnico — seguido de dois bootcamps, um de desenvolvimento de software e outro de data analytics.
"Eu sou a única mantenedora da minha família, então eu cheguei à conclusão de que, por exemplo, uma renda de estágio para mim não ia acontecer, não era possível. [...] Eu pensei então em investir em uma pós-graduação" por Carolina Vila-Nova
Três anos de tentativas, uma única entrevista técnica — e o problema não era ela
Enquanto continuava trabalhando como jornalista, Carolina estudava nos fins de semana e à noite, o que estendeu sua transição. Ao longo de três anos de candidaturas, participou de apenas um processo com entrevista técnica — e foi aprovada de primeira. Para ela, isso comprova que o obstáculo não era despreparo, e sim um mercado atravessado por preconceitos de idade, gênero e origem profissional.
"Se eu disser para vocês que essa foi a única entrevista técnica que eu fiz, vocês não vão acreditar, mas é a pura verdade. E é por isso que eu acho que o problema não estava comigo, porque o problema estava com o mercado" por Carolina Vila-Nova
Aprender Go como segunda linguagem, sob pressão de entregas reais
Depois de seis meses de treinamento interno em Java, Carolina foi alocada para um time que começava um projeto novo em Go — linguagem com a qual nunca tinha tido contato. Aprender uma tecnologia desconhecida enquanto já precisava entregar no dia a dia foi um dos momentos mais tensos do início de carreira, ainda que ela reconheça que uma segunda linguagem tende a ser mais rápida de assimilar que a primeira.
"Eu era verde ainda na programação e mesmo assim tinha que aprender uma nova linguagem, ao mesmo tempo fazendo entregas nessa linguagem no dia a dia" por Carolina Vila-Nova
O jornalismo é competitivo; o desenvolvimento é colaborativo
Um dos contrastes mais marcantes foi a mentalidade de equipe. No jornalismo, colegas de editoria competem entre si e protegem suas próprias fontes; no desenvolvimento, o dia a dia gira em torno de negociar, combinar e dividir tarefas continuamente. Para Carolina, a imagem do desenvolvedor isolado atrás do computador não resistiu à experiência prática.
"Aquela ideia do desenvolvedor sentado sozinho atrás de um computador é muito mais um mito do que alguma coisa que no dia a dia se sustente, porque o que eu via ali era você toda hora tendo que conversar, tendo que negociar, tendo que combinar o que seria feito" por Carolina Vila-Nova
Frase de destaque
"Eu cheguei à conclusão que não era eu que estava errada. Era o mercado" por Carolina Vila-Nova
Lições do episódio
- Uma transição de carreira pode levar anos de preparo silencioso antes da primeira oportunidade — isso não é fracasso, é o processo real.
- Dificuldade em conseguir entrevistas não significa necessariamente despreparo técnico; vieses de mercado (idade, gênero, origem profissional) também pesam.
- Escolher a via de capacitação (MBA, bootcamp, graduação) é uma decisão prática, moldada pela realidade financeira e familiar de cada pessoa, não uma fórmula única.
- Habilidades de outras profissões — como fazer perguntas incômodas ou articular conversas entre times — se traduzem em diferenciais reais dentro da tecnologia.
- O trabalho em equipe na programação é constante e colaborativo, bem diferente do estereótipo do desenvolvedor isolado.
- Diante da IA generativa, saber usar agentes e ferramentas como Copilot ou Cursor já é exigido mesmo de quem está começando agora — dominar apenas lógica de programação deixou de ser suficiente.