Tiago Aguiar e Rafael Peixoto recebem Carolina Vila-Nova, desenvolvedora de software no Mercado Livre, que deixou mais de 20 anos de carreira no jornalismo internacional para migrar para a tecnologia. A conversa reconstrói essa transição do início ao fim: o desgaste que motivou a saída, a capacitação formal escolhida no meio do caminho, os três anos até a primeira vaga e as diferenças de mentalidade entre as duas profissões.
Formada em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, com pós-graduação em Relações Internacionais e mestrado em política latino-americana, Carolina construiu mais de 20 anos de carreira no jornalismo — atuou como redatora, repórter, editora assistente, editora-chefe e correspondente internacional, cobrindo eventos na América Latina e na Europa. O primeiro contato com tecnologia veio ainda nessa fase, ao lidar com raspagem e análise de grandes volumes de dados do Congresso Nacional para investigações jornalísticas. Hoje atua como desenvolvedora de software no back-end do Mercado Livre, tendo entrado na empresa por um programa de bootcamp interno.
Carolina descreve o início do processo como cheio de "falsos começos": o apego a uma carreira construída ao longo de décadas dificultava admitir que a mudança era necessária. O gatilho foi um desgaste acumulado — sensação de que a experiência não era mais valorizada, acúmulo de funções, salário estagnado e um impacto direto na saúde física e mental.
"Eu já sentia que a minha experiência não era tão valorizada, sentia que eu acumulava muitas funções, vivia muito estressada, o salário não acompanhava, então isso acabou tendo impacto óbvio na minha saúde física, na minha saúde mental" por Carolina Vila-Nova
Carolina não podia aceitar uma remuneração de estágio, o que descartou a ideia de recomeçar com uma graduação tradicional. A alternativa foi investir em um MBA voltado a tecnologia e inovação para negócios — que funcionou como uma porta de entrada para entender o universo técnico — seguido de dois bootcamps, um de desenvolvimento de software e outro de data analytics.
"Eu sou a única mantenedora da minha família, então eu cheguei à conclusão de que, por exemplo, uma renda de estágio para mim não ia acontecer, não era possível. [...] Eu pensei então em investir em uma pós-graduação" por Carolina Vila-Nova
Enquanto continuava trabalhando como jornalista, Carolina estudava nos fins de semana e à noite, o que estendeu sua transição. Ao longo de três anos de candidaturas, participou de apenas um processo com entrevista técnica — e foi aprovada de primeira. Para ela, isso comprova que o obstáculo não era despreparo, e sim um mercado atravessado por preconceitos de idade, gênero e origem profissional.
"Se eu disser para vocês que essa foi a única entrevista técnica que eu fiz, vocês não vão acreditar, mas é a pura verdade. E é por isso que eu acho que o problema não estava comigo, porque o problema estava com o mercado" por Carolina Vila-Nova
Depois de seis meses de treinamento interno em Java, Carolina foi alocada para um time que começava um projeto novo em Go — linguagem com a qual nunca tinha tido contato. Aprender uma tecnologia desconhecida enquanto já precisava entregar no dia a dia foi um dos momentos mais tensos do início de carreira, ainda que ela reconheça que uma segunda linguagem tende a ser mais rápida de assimilar que a primeira.
"Eu era verde ainda na programação e mesmo assim tinha que aprender uma nova linguagem, ao mesmo tempo fazendo entregas nessa linguagem no dia a dia" por Carolina Vila-Nova
Um dos contrastes mais marcantes foi a mentalidade de equipe. No jornalismo, colegas de editoria competem entre si e protegem suas próprias fontes; no desenvolvimento, o dia a dia gira em torno de negociar, combinar e dividir tarefas continuamente. Para Carolina, a imagem do desenvolvedor isolado atrás do computador não resistiu à experiência prática.
"Aquela ideia do desenvolvedor sentado sozinho atrás de um computador é muito mais um mito do que alguma coisa que no dia a dia se sustente, porque o que eu via ali era você toda hora tendo que conversar, tendo que negociar, tendo que combinar o que seria feito" por Carolina Vila-Nova
"Eu cheguei à conclusão que não era eu que estava errada. Era o mercado" por Carolina Vila-Nova