
Mudança de Carreira com Rhayssa Kramer
Resumo do episódio 69 do AguiarDev Talks. Prefere assistir? Veja o episódio completo →
Tiago Aguiar e Rafael Peixoto recebem Rhayssa Kramer, desenvolvedora full-stack na Avanade, que trocou dez anos de carreira no Direito pela programação. A conversa percorre uma transição sem atalhos: uma paixão de infância adiada por falta de representatividade, uma crise de saúde mental como estopim, mais de 100 candidaturas rejeitadas e um ano e meio de busca até o primeiro sim.
O que foi discutido
- O contato precoce com tecnologia na infância, ao lado de um tio analista de sistemas
- Por que a falta de representatividade feminina na área, nos anos 2000, empurrou a escolha para o Direito
- O que motivou a decisão de deixar dez anos de carreira jurídica
- Como um assédio no trabalho anterior agravou um quadro depressivo e acelerou a mudança
- A transferência natural da habilidade de comunicação do Direito para a tecnologia
- O caminho até a primeira oportunidade: faculdade, cursos, mais de 100 candidaturas
- A maior dificuldade da transição, e o papel da família e da pressão sobre idade
- Os planos de carreira entre desenvolvimento, segurança e DevOps
Sobre Rhayssa Kramer
Rhayssa cresceu com um tio analista de sistemas e teve contato com computadores desde os três ou quatro anos de idade — disquete, os primeiros sites, HTML e CSS ainda na adolescência. Mesmo com essa afinidade, não via mulheres na área nem uma faculdade acessível perto de casa, e escolheu o Direito como plano B, por afinidade com escrita e argumentação e por já haver advogados na família. Construiu ali dez anos de carreira — estágio em tribunal, advocacia, trabalho em sindicato — até que, por volta dos 30 anos, um período de reflexão sobre o futuro coincidiu com um assédio no ambiente de trabalho, o gatilho que a levou a pesquisar se a tecnologia, seu "plano A" original, ainda era viável. Hoje atua como desenvolvedora full-stack na Avanade, depois de passar por áreas de segurança e DevOps dentro da própria empresa.
Principais pontos
A paixão por tecnologia foi adiada, não abandonada
Rhayssa teve contato intenso com informática antes mesmo de entrar na escola, e virou a pessoa da família que "sabia consertar tudo". Na adolescência, porém, não enxergava nenhuma mulher na área nem uma faculdade de TI acessível, e concluiu que aquilo não daria uma carreira viável — só "uma coisa que gostava".
"Eu amo muito isso, mas isso aí não vai ser o meu futuro, é só realmente uma coisa que eu gosto." por Rhayssa Kramer
Uma crise de saúde mental foi o estopim da mudança
Perto dos 30 anos, Rhayssa começou a não se enxergar mais crescendo na carreira jurídica. Nesse período de reflexão, sofreu um assédio no trabalho no sindicato onde atuava, o que agravou um quadro depressivo que já vinha se formando havia tempo. Foi esse ponto de ruptura — não uma decisão fria de carreira — que a fez pesquisar se a tecnologia ainda era um caminho possível, e encontrar um cenário bem mais aberto a mulheres do que na sua adolescência.
"Eu sofri um assédio bem pesado, e aquilo ali potencializou 100%... eu acabei ficando bem doente, tipo, eu fiquei depressiva, eu fiquei mal." por Rhayssa Kramer
A comunicação jurídica se transferiu quase intacta para a tecnologia
No Direito, Rhayssa já precisava "traduzir" linguagem técnica para clientes de todo tipo — inclusive pessoas não alfabetizadas — adaptando o discurso ao universo de quem ouvia. Essa habilidade se transferiu diretamente para a tecnologia, e ela chegou à área comunicando-se melhor do que boa parte de quem vinha de outros caminhos.
"Você tem que entrar no universo dessas pessoas, você tem que falar de uma forma que ela vai te compreender." por Rhayssa Kramer
Mais de 100 candidaturas não significam despreparo técnico
Depois de largar o emprego, sem ainda ter certeza de que voltaria para a tecnologia, Rhayssa passou por um trabalho de customer experience em uma faculdade, foi promovida rápido, mas decidiu ir atrás de algo mais técnico. Fez faculdade de novo — a primeira disciplina foi Java, quase motivo de desistência antes de virar paixão — e percebeu que só o diploma não bastaria: precisava de cursos e formações. Ainda assim, aplicou para mais de 100 vagas, incluindo estágios que já sabia executar, e levou recusa atrás de recusa.
"Eu apliquei para mais de 100 vagas, fiz 500 milhões de entrevistas para poder conquistar a primeira oportunidade, e eu quase não acreditava que aquilo tava acontecendo comigo." por Rhayssa Kramer
O maior desafio foi lidar consigo mesma, não com o conteúdo técnico
Olhando em retrospecto, Rhayssa aponta a insegurança como o obstáculo mais duro — mesmo sendo, por natureza, uma pessoa confiante e otimista. A isso somou-se a pressão externa: comentários sobre já ter uma carreira estabelecida e sobre idade, do tipo "você já está muito velha para isso". Aprender a não deixar esse desestímulo penetrar foi o que sustentou a busca até o primeiro sim, um ano e meio depois de ter saído do emprego anterior.
"Eu acho que o maior desafio foi eu mesma... era muita falta de confiança em si mesmo, e olha que eu sou uma pessoa muito confiante." por Rhayssa Kramer
Frase de destaque
"Se você fizer uma coisa e ela só te der dinheiro uma hora, a conta não vai fechar." por Rhayssa Kramer
Lições do episódio
- Interesses adiados na juventude por falta de representatividade ou de viabilidade financeira podem ser retomados mais tarde, num mercado diferente.
- Uma crise pessoal — não só um planejamento racional de carreira — costuma ser o gatilho real de uma mudança represada há anos.
- Habilidades de comunicação construídas em outra profissão, como traduzir jargão técnico para leigos, se transferem quase diretamente para a tecnologia.
- Múltiplas rejeições ao longo de uma busca de emprego não são, necessariamente, indicador de despreparo técnico.
- A maior barreira de uma transição de carreira costuma ser interna — a insegurança e o desestímulo alheio pesam mais do que o conteúdo técnico em si.
- Buscar motivação genuína pela área, e não só remuneração, é o que sustenta a persistência quando os resultados demoram a aparecer.