Tiago Aguiar e Rafael Peixoto recebem Oryange Strifezze e Luisa Boutin, duas profissionais que trocaram a Química pela Tecnologia por caminhos bem diferentes: uma pesquisa acadêmica interrompida pela pandemia de um lado, dez anos de indústria química e um cargo de liderança técnica do outro. A conversa expõe uma tensão central de quem migra de uma área exata para o desenvolvimento de software — a dificuldade de abandonar a certeza de uma resposta única e aprender a conviver com o "depende".
Luisa Boutin entrou na graduação em Química já com o objetivo de seguir pesquisa: iniciação científica desde o primeiro ano, uma segunda iniciação depois, e um mestrado começado em 2019. Os cortes de bolsas e financiamento de pesquisa, somados à pandemia em 2020, interromperam o projeto. Foi nesse contexto que ela iniciou a faculdade de Ciência da Computação em agosto de 2020, hoje quase concluída. O contato inicial com programação já existia — na iniciação científica, trabalhando com química teórica, ela escrevia scripts e mexia em shell.
Oryange Strifezze teve um caminho mais longo dentro da Química: cerca de dez anos, começando por um curso técnico, seguido de engenharia química e passagens por Braskem, Petrobras e, por último, Natura, onde chegou a um cargo de liderança técnica na área de cosméticos. A desmotivação surgiu ali, e a resposta foi abrir a própria empresa em 2020. Sem orçamento para contratar alguém que fizesse o site do negócio, ela decidiu fazer sozinha — e foi nesse processo que descobriu o que realmente a motivava.
Luisa conseguiu sua primeira oportunidade por indicação de um professor que percebeu sua dedicação durante as aulas remotas da pandemia — ela sempre participava, pedia referências extras, tirava dúvidas. Isso rendeu uma indicação direta para o primeiro emprego. Na visão dela, o conteúdo técnico de programação está disponível de graça na internet, mas o networking construído em um ambiente acadêmico é o que realmente é difícil de replicar sozinho.
"Eu consegui a minha primeira oportunidade justamente por conta da faculdade [...] o que eu consegui de colher de mais importante da faculdade foi justamente essas oportunidades de networking, e isso é algo que pra você construir sozinho online hoje já tá bem mais difícil" por Luisa Boutin
Ao abrir a própria empresa de cosméticos, Oryange investiu todo o capital em produto e não sobrou dinheiro para contratar alguém que fizesse o site. Decidiu fazer sozinha — e percebeu que se dedicava ao site mais do que ao próprio negócio. O sinal veio de fora: foi a mãe dela quem notou o quanto ela estava "viciada" naquele trabalho.
"Eu me dei conta que aquilo tava me motivando mais do que a própria empresa [...] um dia minha mãe viu o trabalhão, e eu falei assim: cara, eu acho que tu gosta disso, porque eu nunca tive, assim, tão viciada numa coisa" por Oryange Strifezze
Na Química, um problema tem condições de contorno bem definidas e um conjunto limitado de respostas corretas — dá para publicar uma solução e ter certeza de que ela é definitiva. Na programação, quase toda decisão técnica esbarra em múltiplos caminhos possíveis, e a resposta correta depende de prazo, custo e necessidade de manutenção futura. Para quem vem de uma área mais determinística, essa mudança de raciocínio foi um dos maiores choques da transição.
"Quando eu vim pro meio de dev [...] tem 200 maneiras diferentes de fazer alguma coisa aqui. Ah, mas qual é a mais correta? Depende. E administrar esse depende no começo pra mim foi muito sofrido" por Luisa Boutin
Oryange descreve o início como desesperador — havia momentos em que achava que não era capaz e que, cedo ou tarde, teria que voltar para a Química ou para a própria empresa. O que a manteve firme foi o suporte constante de desenvolvedores seniores disponíveis para tirar dúvidas, o que ajudou a transformar o medo de errar em aprendizado.
"Eu achei que eu não seria capaz, o tempo todo eu achava que em algum momento eu ia ter que voltar a ser química, ou voltar pra minha empresa, eu fiquei nesse amor e ódio aí no início" por Oryange Strifezze
Luisa reforça que o medo comum de quem migra de carreira — a sensação de que os anos de estudo anteriores "não serviram pra nada" — não se confirma na prática. Raciocínio lógico, capacidade de análise e disciplina de estudo desenvolvidos em qualquer área anterior encontram aplicação direta na rotina de desenvolvimento.
"Tudo, absolutamente tudo que você fez na vida, de uma forma ou de outra, é conhecimento adquirido [...] toda essa capacidade de análise veio justamente do treinamento que eu tive lá fora" por Luisa Boutin
"Não compare a sua curva de aprendizado com a do outro, porque cada um tem a sua curva — às vezes demora mais para eu chegar lá no ponto que o teu colega tá" por Oryange Strifezze