O No Code deixou de ser uma curiosidade de nicho para se tornar uma alternativa real de carreira e de negócio no Brasil. Para explorar esse universo, o programa recebeu Renato Asse, criador da maior comunidade No Code do país, que contou como saiu da indústria náutica para ensinar milhares de pessoas a criar aplicativos sem escrever uma linha de código. A conversa passou pelas diferenças entre no-code, low-code e alto código, pelos limites técnicos dessas ferramentas e pelo mercado de trabalho que se formou ao redor delas.
Renato Asse construiu carreira como diretor de vendas e marketing numa indústria náutica, fabricante de lanchas e iates, onde convivia com o caos de planilhas paralelas e processos manuais típico de empresas em crescimento. Tentou resolver o problema programando por conta própria, primeiro em HTML, CSS e JavaScript, depois descobrindo ferramentas de gestão de processos até chegar ao Bubble. Em seis meses criou e colocou em produção um aplicativo interno que acabou se espalhando por vendas, financeiro, qualidade e produção da empresa. Saiu do cargo em 2019, depois de 13 anos na companhia, para empreender no digital, criou um canal no YouTube sobre No Code e hoje comanda a Comunidade Sem Codar, hoje a maior comunidade de No Code do Brasil, com mais de 15 mil alunos formados.
Renato explicou que sua entrada no No Code não veio de uma busca por tecnologia por tecnologia, mas de um problema concreto de gestão: dezenas de planilhas paralelas que iam gerando furos operacionais à medida que a empresa crescia. Depois de meses tentando programar sozinho sem sair do papel, ele conheceu ferramentas de BPM e, em seguida, o Bubble — e a virada de chave foi a velocidade: o que não saía do papel em anos de estudo virou um aplicativo funcional em meses, primeiro para a equipe de vendas, depois para toda a empresa.
"Nos próximos seis meses, após eu ter conhecido Bubble, não só eu aprendi como eu criei o aplicativo e eu lancei o aplicativo em seis meses." por Renato Asse
Um dos pontos mais didáticos da conversa foi a distinção entre as três categorias. No-code elimina o teclado: tudo é montado visualmente, com lógica pronta para gerar PDF, enviar notificação ou automatizar um fluxo. Low-code ainda exige código para recursos mais específicos, geralmente porque a ferramenta cobre bem o front mas depende de integração com um backend externo. High-code é a programação tradicional — ainda que, como o próprio Renato observou, frameworks modernos já abstraiam boa parte da complexidade que antes exigia código puro.
"No-code é quando você não precisa do teclado pra criar um aplicativo. Então, cara, você monta tudo visualmente e você sabe que a grande maioria dos recursos você consegue montar só por meio de lógica mesmo." por Renato Asse
Diferente de concorrentes como FlutterFlow ou WeWeb, que resolvem bem o front mas precisam de integração com Firebase, Supabase ou outro banco externo, o Bubble se destaca por hospedar front, back, servidor e banco de dados em um único ambiente. Renato usou o exemplo de um desafio entre alunos — criar uma lista de tarefas persistida na nuvem — resolvido em 58 segundos, para ilustrar o quanto a curva de complexidade muda dependendo da ferramenta escolhida.
"As ferramentas low-code, baixo código, são aquelas que, hoje, via de regra, não são full stack, ou seja, a maioria delas não tem servidor e banco de dados, elas são só front." por Renato Asse
Para negócios em fase de validação, o argumento de Renato foi menos sobre economia e mais sobre velocidade de aprendizado: uma startup com um ano de caixa que consegue pivotar seis vezes nesse período tem muito mais chances de encontrar um modelo que funcione do que uma que só consegue pivotar duas vezes usando desenvolvimento tradicional. A lógica se aplica principalmente a negócios cuja complexidade está nas regras do produto, não na engenharia por trás dele.
"É três vezes mais provável que a tua startup der certo por conta de você otimizar os recursos." por Renato Asse
Questionado sobre as tendências para 2024, Renato apostou na combinação entre No Code e IA generativa como o próximo salto da categoria. Tarefas que hoje ainda exigem abrir o código — como escrever uma função específica ou montar uma query — já começam a ser resolvidas por prompt dentro das próprias ferramentas, com o desenvolvedor no-code testando e validando o resultado em vez de escrevê-lo à mão.
"A gente vê essas ferramentas de fronte, e uma das coisas que toma mais tempo é você desenhar uma interface. E aí, hoje, as ferramentas estão vindo com recursos como, você especifica com um prompt a interface que você quer e ele te dá a página entregue." por Renato Asse
"Não é minha vibe. Eu não curto mexer com garbage collector, cara. Eu não curto ficar escrevendo os bits do assemble, não é minha parada." por Renato Asse