Não existe fórmula pronta para quem está começando na área de tecnologia, mas existem padrões que se repetem. Tiago Aguiar, Rafael Peixoto e Yuri Marcel abrem o primeiro programa do ano contando como cada um entrou na carreira — um sem nunca ter feito estágio, os outros dois vindos do suporte técnico e de tecnologias que já nem existem mais no mercado — e usam essas próprias histórias como ponto de partida para uma conversa dividida em blocos, cada host trazendo um conselho e os outros complementando com experiências próprias. O resultado é menos uma lista de dicas genéricas e mais um retrato de decisões reais: onde vale a pena arriscar, onde a pressa cobra caro e por que quem está começando precisa aprender a jogar o jogo de cada empresa antes de tentar se destacar nele.
Nenhum dos três hosts trilhou o caminho "clássico" de estágio formal seguido de efetivação. Peixoto entrou na área quase por acaso, fazendo trabalhos temporários de suporte até ser convidado para uma vaga administrativa que, na prática, virou a porta de entrada para TI. Os outros dois vieram de estágios de suporte técnico que também não tinham relação direta com programação no início — e só migraram para o desenvolvimento quando a oportunidade surgiu dentro da própria empresa, muitas vezes numa tecnologia diferente da que estudavam na faculdade. A conversa reforça que a oportunidade de entrada raramente é linear — ela aparece, muitas vezes disfarçada, para quem está estudando e sinalizando interesse ao seu redor, e fazer um bom trabalho onde já está costuma ser o que chama atenção para o próximo passo.
"Cara, nunca fiz estágio na vida. Eu entrei meio que, na sorte, assim, nessa carreira, eu cheguei a fazer alguns trampos temporários, assim, de suporte e tal, mas realmente bem temporário." por Rafael Peixoto
Yuri conta que aceitou mais de uma vaga sem conhecer a tecnologia exigida — de ASP clássico a Azure — apostando na própria capacidade de estudar rápido e resolver o problema depois de já estar dentro, chegando a tirar uma certificação na nuvem da Microsoft depois de entrar sem nenhuma experiência prévia nela. Mas ele é direto ao apontar o outro lado: quem se arrisca sem se conhecer o suficiente corre o risco de comprometer entregas, decepcionar o time e sair pior do que entrou — porque a frustração de ser mal avaliado numa vaga que você "comprou" pode custar mais do que simplesmente não ter tentado.
"Você tem que saber a sua capacidade. Se você acha que você é capaz de entrar lá e conseguir administrar um problema que você ainda não sabe... mas eu conheço pessoas que arriscaram e não corresponderam. Então depende de pessoa pra pessoa. Você tem que se conhecer primeiro antes de você jogar em um jogo arriscado." por Yuri Marcel
Yuri relata o caso de um colega júnior tecnicamente muito bom, mas que tentava acumular tarefas para se destacar mais rápido — travando entregas do squad inteiro e comprometendo a qualidade geral. O resultado foi o oposto do esperado: na rodada de promoções, ele ficou de fora justamente pela falta de soft skill em compartilhar o trabalho.
"O cara tinha muita habilidade técnica, mas faltava uma coisa que era primordial pra quem quer subir na carreira, que era soft skill. Ele queria centralizar algumas atividades pra ele... e aí causando que quando teve a rodada de promoções, ele não recebeu justamente pelo motivo de ter muita pressa." por Yuri Marcel
Antes de chegar ao caso do colega que hoardava tarefas, o trio discute a linha entre se destacar e se sacrificar. Um exemplo citado é o de resolver, fora do horário e sem cobrar nada por isso, um problema pontual que estava incomodando o time — um gesto ocasional que gera reconhecimento genuíno. O contraponto é o profissional que passa a trabalhar durante as férias ou fora do expediente com frequência: a performance individual sobe, mas o padrão vira régua para todo o time, e o que parecia dedicação particular se transforma em cultura de sobrecarga que ninguém pediu.
Peixoto lembra que, mesmo em empresas sem a cultura formal de 1:1, sempre existiu uma versão orgânica disso — parar para uma conversa no café, trocar uma ideia informal com quem tem mais experiência. Ele fecha o ponto trazendo a ideia de mentoria: não precisa ser um processo chique, só alguém mais experiente disposto a ensinar de verdade, sem guardar o conhecimento para si.
"Eu acho que os melhores mentores são aqueles que esperam que os mentorados os superem." por Rafael Peixoto
"Você tem que se conhecer primeiro antes de você jogar em um jogo arriscado." por Yuri Marcel