Natalia D'Angelo passou mais de uma década no departamento pessoal e na área de benefícios antes de trocar de carreira para a programação. Neste episódio, ela conta como uma entrevista maratona de bootcamp, um corte de quase metade do salário e uma boa dose de curiosidade a levaram de analista de RH a desenvolvedora júnior em um banco de grande porte.
Natalia D'Angelo construiu sua carreira profissional na área de recursos humanos, com passagem por departamento pessoal e, principalmente, benefícios — cálculo de vale-transporte, alimentação, convênios e seguros em empresas de diversos portes. Formada em Ciências Contábeis, chegou a considerar Direito antes de optar pelo curso que lhe garantia bolsa integral. O contato com tecnologia surgiu de forma indireta, dentro do próprio ambiente de RH, ao interagir com a equipe de sistemas para resolver demandas de relatórios. Migrou para a programação através de um bootcamp, passou por front-end e back-end até se firmar em Java, e hoje atua como desenvolvedora BFF (Back for Front) em um banco de grande porte, ao mesmo tempo em que cursa Análise e Desenvolvimento de Sistemas.
No bootcamp em que foi contratada, Natalia não tinha nenhum conhecimento formal em programação — o processo seletivo não exigia isso. O que pesou na decisão dos entrevistadores foi a disposição de aprender e a franqueza nas respostas, mesmo em uma entrevista exaustiva de cinco horas, disputada por quase vinte candidatos.
"O que eles realmente levaram mais em conta ali na entrevista foi a questão de realmente ter essa sede de conhecimento, curiosidade, de perguntar, de querer entender, de querer saber melhor e se interessar bastante." por Natalia D'Angelo
Sair de uma posição consolidada no RH para uma vaga júnior em tecnologia significou reduzir o salário quase pela metade. Foi uma escolha deliberada, feita já sabendo que os primeiros passos em uma nova área raramente vêm com o mesmo retorno financeiro do cargo anterior — o ganho vinha da direção da carreira, não do contracheque imediato.
"Quando eu saí da RH para ir para a minha primeira oportunidade de dev, eu já estava com um salário considerável, voltei para Júnior, então reduzi quase metade do salário. Eu dei um passo para trás para tentar dar vários passos à frente." por Natalia D'Angelo
Ao entrar em contato com times de desenvolvimento mais jovens, Natalia percebeu que sua experiência lidando com pessoas em situações de tensão — reclamações, negociações, conflitos — se traduzia diretamente em jogo de cintura para conduzir divergências entre squads, gerentes de projeto e tech leads.
"Na parte de RH você acaba tendo um jogo de cintura muito grande [...]. Acho que o meu jeito um pouco mais calmo ajudava bastante nisso. Fala: não, vamos respirar, vamos tentar entender, vamos fazer devagar, vamos com calma. E hoje me ajuda bastante." por Natalia D'Angelo
Depois do bootcamp, Natalia foi alocada em uma tarefa que parecia trivial: habilitar um botão e mudar seu texto em um sistema Java Swing. Na prática, o desafio estava em navegar por um monolito com milhares de linhas de código legado — uma introdução nada gentil ao que significa manter software em produção, bem diferente do ambiente controlado do treinamento.
"Eu literalmente mexi no botão, habilitei o botão e mudei o texto dele, tudo isso. Demorei duas semanas para conseguir achar onde ficava esse botão. Um código de não sei quantas mil linhas do legado, era monolito, foi tenso." por Natalia D'Angelo
"Não é fácil, mas tem que insistir, qualquer coisa que a gente goste, você tem que persistir nisso." por Natalia D'Angelo