Empresas ao redor do mundo estão tentando retomar o trabalho presencial, e a reação de boa parte dos funcionários tem sido de resistência — a ponto de gente trocar de emprego só para manter o regime remoto. Tiago Aguiar recebe Yuri Marcel para tentar entender esse movimento: por que as empresas estão insistindo em algo que parece gerar mais despesa para os dois lados, e o que isso sinaliza sobre o futuro do trabalho em tecnologia.
Yuri Marcel atua na área de tecnologia e traz para a conversa a vivência de ter passado por empresas que adotaram e depois recuaram do home office, incluindo um caso pessoal de ter pedido demissão um mês depois de a empresa exigir a volta ao escritório. Também compartilha experiência com startups que cresceram durante a pandemia sob regime remoto e, em alguns casos, não conseguiram sustentar esse crescimento sem controle mais direto sobre as equipes.
Yuri traz pesquisas feitas em cidades brasileiras, incluindo São Paulo e Fortaleza, mostrando que o retorno ao presencial aumenta a despesa do trabalhador com transporte e alimentação, além do tempo perdido em deslocamento — em alguns casos, até quatro horas por dia somadas às oito horas de expediente. Do lado da empresa, ele cita um levantamento apontando cerca de 20% a mais de custo para manter a estrutura física (cafezinho, papel, ar-condicionado, aluguel de salas). A pergunta que ele levanta é direta: se os dois lados saem perdendo financeiramente, por que insistir no presencial?
"Se tem despesa para o funcionário, se tem despesa para a empresa, por que que os estão querendo isso se gera mais despesa?" por Yuri Marcel
Ao ser questionado sobre os motivos declarados pelas empresas — manter a cultura organizacional e melhorar a comunicação —, Yuri argumenta que nenhuma das duas justificativas é convincente na prática, já que ferramentas como Slack e Teams permitem comunicação rápida com qualquer pessoa da empresa. Ele defende que o motivo real é outro: startups e empresas que cresceram durante a pandemia sem conseguir manter controle direto sobre as equipes remotas tiveram dificuldade de sustentar esse crescimento, e atribuem esse problema ao próprio modelo de trabalho.
"Entraram no Home Office, a empresa perdeu o controle, como é que ela conseguiu crescer se ela não tinha controle? [...] não conseguiram manter o controle da empresa, não foi, não vingou." por Yuri Marcel
Yuri reconhece que o home office não funciona igualmente bem para todo mundo. Ele cita o caso de profissionais que, aproveitando a flexibilidade, acumularam dois ou três trabalhos simultâneos — o que, na visão dele, compromete o rendimento em cada um deles, já que a pessoa perde o momento de "recarregar" que o deslocamento até o escritório proporcionava. Soma-se a isso gente sem estrutura adequada em casa ou sem disciplina para separar horário de trabalho e vida pessoal.
"Ela tinha um funcionário 100% que ela está conseguindo no 70%, 60% do funcionário. E ela não pode controlar isso, a não ser que ela traga para o presencial." por Yuri Marcel
Um dos pontos mais afiados da conversa é sobre os benefícios oferecidos como atrativo para o presencial — mesa de videogame, piscina de bolinha, café ilimitado. Yuri argumenta que, na prática, raramente alguém se sente à vontade para parar 15 ou 30 minutos do expediente para realmente usar esses benefícios, o que os torna mais decorativos do que funcionais. Para ele, isso não compensa o que o home office já oferece: liberdade de estruturar o próprio ambiente e tempo sem esse peso simbólico.
"Se a empresa está fornecendo esse benefício para o funcionário querer ir para o presencial, [...] mas dá só o Home Office para a pessoa, a pessoa ainda acha mais assim, com certeza." por Yuri Marcel
Indo além da crítica às empresas, Yuri é direto sobre a maior limitação do próprio modelo remoto: a ausência do convívio espontâneo entre colegas — o cafezinho, a conversa de corredor, o momento de aproximação que nenhuma chamada de vídeo recria de verdade. Ele relata ter vivido isso na pele durante o início da pandemia, morando sozinho, e reconhece que empresas sem estrutura de acolhimento para o time remoto correm o risco real de isolar e afetar psicologicamente seus funcionários.
"Não muda aquele momento do cafezinho ali que tá todo mundo junto, trocando ideias, conversando [...] isso daí não resolveu." por Yuri Marcel
"Minha previsão [...] as empresas vão tentar, eu acredito que é uma visão retrógrada [...] eles vão tentar trazer o presencial, mas não vão conseguir. O capital humano vai sair, vão perder profissionais e exemplares por essa tentativa, e eles vão acabar desistindo e tendo que se adaptar." por Yuri Marcel