Tiago Aguiar e Yuri Marcel recebem Greicy Itakura, que foi comissária de bordo por 10 anos antes de migrar para o desenvolvimento back-end. A conversa acompanha essa transição do início ao fim: o gatilho de uma demissão em massa na aviação, a tentativa (e o erro) de estudar tudo ao mesmo tempo, o ano sem emprego dedicado à faculdade e aos cursos gratuitos, e a forma como a bagagem de uma profissão de lidar com público virou vantagem competitiva no código.
Greicy trabalhou como comissária de bordo por uma década, período em que cobriu rotas por praticamente todo o Brasil e voos internacionais para o Mercosul e os Estados Unidos. A saída começou a se desenhar quando a empresa em que trabalhava passou por uma demissão em massa: percebendo o risco de depender de um mercado com poucas companhias aéreas, decidiu montar um plano B antes de ser desligada, iniciando uma faculdade de engenharia de software ainda enquanto voava. Quando a pandemia chegou e ela foi de fato demitida, passou um ano sem emprego dedicada aos estudos — faculdade e dezenas de cursos gratuitos disponíveis na internet. Hoje atua como desenvolvedora back-end em Java, em seu primeiro emprego na área, trabalhando em um projeto legado e mirando a evolução para sênior e, depois, para arquitetura de software.
Greicy conta que o estopim para migrar de carreira não foi o cansaço da rotina, mas o cálculo de risco: poucas companhias aéreas operam no Brasil, e uma demissão fecha rapidamente as alternativas dentro do próprio setor. Foi esse raciocínio que a levou a começar a se preparar antes mesmo de ser desligada, ao invés de esperar a crise chegar para só então reagir.
"Eu preciso de um plano B, porque se essa demissão chega perto, a próxima com certeza eu vou ter que ter um plano B, porque empresas, companhias aéreas no Brasil são poucas, se eu trabalho em uma e ela me mandou embora só vou ter mais 2, 3 opções" por Greicy Itakura
Sem conhecer as ramificações da área de tecnologia, Greicy se inscreveu em todo curso gratuito que encontrou pela frente — front-end, mobile, e mais tarde Java. O resultado foi uma quantidade extrema de certificados acumulados em pouco tempo, mas também um caminho mais longo e disperso até a primeira vaga, já que a maioria das entrevistas que conseguia era para front-end, área em que não teve a experiência mais sólida.
"Todos os cursos que tinha disponível no mundão da internet, ah, tem cursos x, vou fazer, tem cursos y, vou fazer, fiz todos assim, eu acho que eu cheguei a ter 32 certificados no primeiro ano da pandemia" por Greicy Itakura
Ao migrar, Greicy esperava encontrar uma área mais isolada, sem o desgaste de lidar diretamente com pessoas — uma expectativa que ela mesma reconhece como equivocada. A comunicação assertiva construída na aviação, incluindo lidar com problemas urgentes e imprevisíveis durante o voo, se mostrou tão relevante quanto qualquer habilidade técnica no dia a dia de code review, resolução de bugs e negociação entre times.
"Ledo engano, quem acha que desenvolvedor só lida com código, porque é problema do mesmo jeito, a gente tem que resolver com as pessoas e tudo mais" por Greicy Itakura
Depois de uma década numa posição em que já dominava tudo e raramente precisava perguntar, Greicy teve que reaprender a pedir ajuda do zero — inclusive recorrendo a desenvolvedores que não conhecia, no GitHub, por sentir menos receio de ser julgada por estranhos do que por colegas próximos. A prática de programar em dupla, compartilhando tela e recebendo opinião em tempo real, virou uma das formas mais diretas de aprender e perder o medo de expor o próprio código.
"Pé programing é como você faz o código compartilhando a tela com outra pessoa, então você vai codando e a outra pessoa está vendo, está dando opinião dela" por Greicy Itakura
"Não desista, porque todo dia eu pensava desistir" por Greicy Itakura