Formada em direito na PUC do Rio Grande do Sul, Patricia Bolner Camiansky passou anos entre um escritório de direito bancário em Porto Alegre e outro em São Paulo antes de decidir trocar de área. A conversa percorre o desânimo com a advocacia, a descoberta da programação em uma palestra sobre startups e a mudança de país que veio como consequência da nova carreira.
Patricia nasceu e cresceu em Porto Alegre, onde se formou em direito na PUC-RS e fez pós-graduação na mesma instituição. Trabalhou como mediadora voluntária em tribunais antes de conseguir seu primeiro emprego remunerado, em um pequeno escritório de direito bancário. Depois de seis anos insatisfeita com a rotina e o salário da advocacia, migrou para São Paulo, descobriu a programação em um curso de meio período e conseguiu seu primeiro emprego como desenvolvedora backend por indicação. Hoje mora na Suécia, onde trabalha com consultoria em tecnologia, atuando atualmente em um projeto de cálculo de emissões de carbono. A escolha do país não foi aleatória: veio de uma planilha comparando indicadores de qualidade de vida entre diferentes nações europeias, montada por ela mesma antes da mudança.
O ponto de virada não foi um único evento, mas o acúmulo de tarefas repetitivas e mal remuneradas. Patricia descreve o trabalho de tirar fotos de processos no tribunal e cadastrá-los em um sistema, recebendo por peça, como o mais entediante de sua carreira. A insatisfação cresceu até o ponto de desejar ficar doente para não precisar ir trabalhar — sinal que ela reconhece hoje como o alerta de que algo estava errado.
"Eu comecei a sentir vontade de ficar doente para não ter que ir trabalhar. Foi aí que eu percebi que tinha alguma coisa muito errada com a minha carreira." por Patricia Bolner Camiansky
A programação não entrou na vida de Patricia como um plano de carreira, mas como uma curiosidade prática. Ao assistir a uma palestra sobre startups organizada por uma escola de código em São Paulo, ela percebeu que boa parte do seu trabalho como advogada era repetitivo e poderia ser automatizado. A decisão de estudar programação, inicialmente, era apenas para facilitar o próprio trabalho jurídico — não para trocar de profissão.
"Eu tinha tanta coisa que eu faço no meu dia a dia, como advogada, que eu gostaria de automatizar se eu pudesse, se eu tivesse conhecimento." por Patricia Bolner Camiansky
Um dos maiores receios de Patricia antes de começar era a associação entre programação e matemática, disciplina que nunca gostou. Na prática, ela descobriu que a programação se apoia muito mais em lógica — área que sempre teve afinidade — do que em cálculos. Essa descoberta, somada ao espaço criativo que a programação oferece, foi o que a convenceu de que a nova carreira fazia sentido para ela.
"Pra gente que já estudou uma coisa de programação, a gente sabe que é muito mais lógica do que matemática em si. E lógica é uma coisa que eu sempre gostei, contrário de matemática." por Patricia Bolner Camiansky
Patricia atribui boa parte de suas conquistas — o primeiro emprego como desenvolvedora, contatos em Estocolmo antes da mudança e até dicas sobre custo de vida — à prática constante de conversar com pessoas em qualquer contexto, sem se considerar uma pessoa extrovertida. Para ela, o maior obstáculo em qualquer processo seletivo não é a qualificação, mas conseguir a oportunidade de ser ouvido.
"O mais difícil, eu acho, não só em vagas de TI, mas em qualquer vaga de emprego, é conseguir a entrevista. Se te dão uma oportunidade de falar, tu consegue fazer a tua imagem." por Patricia Bolner Camiansky
Foi assim que conseguiu seu primeiro emprego como desenvolvedora — através de um ex-aluno do curso que se ofereceu para indicar seu currículo — e também os primeiros contatos em Estocolmo, meses antes de se mudar para lá, através de um canal de comunidade no Slack.
"Quando a gente escolhe mudar de carreira, tem que sempre olhar pra frente. Não pode olhar pra trás e ficar se perguntando se fez a decisão certa, porque a gente sempre vai ficar com essa dúvida." por Patricia Bolner Camiansky