Tiago Aguiar e Rafael Peixoto recebem Julio de Lima, profissional de QA que mora em Orlando há dez meses, para falar sobre o processo de imigrar para os Estados Unidos. A conversa passa por planejamento financeiro, vistos, impostos, adaptação cultural e uma comparação direta entre a forma como o mercado brasileiro e o americano tratam a profissão de qualidade de software.
Julio de Lima é natural de Araçatuba, interior de São Paulo, e trabalha com qualidade de software. Antes de migrar para os Estados Unidos, atuou por quatro anos como líder de testes no Brasil, período em que formou times técnicos focados em automação e não apenas em execução manual de casos de teste. Em 2016 decidiu que queria ter uma experiência profissional fora do país e passou a se preparar de forma deliberada: cursou bacharelado e mestrado simultaneamente para atender aos pré-requisitos de vistos de trabalho nos Estados Unidos, e mudou de emprego para uma posição que exigia 85% do tempo em inglês. A oportunidade de imigração surgiu de dentro da própria empresa, por meio de uma transferência internacional aprovada com o visto L1. Ele mora em Orlando com a esposa Priscila e a filha Isabel.
Antes de pensar em outro país, Julio viveu a mudança de Araçatuba para São Paulo em 2011. As diferenças de rotina, ritmo de trabalho e infraestrutura já foram um primeiro teste de adaptação, e foi esse processo que o fez perceber que conseguiria se ajustar a contextos diferentes se chegasse com a cabeça aberta.
"Eu posso sair de onde eu estou e, se eu chegar com a cabeça aberta, eu posso me acostumar a onde eu estou, e se eu fizer um bom trabalho, eu posso conseguir ser valorizado onde quer que eu esteja" por Julio de Lima
Julio pesquisou os requisitos de vários países antes de decidir focar nos Estados Unidos. Chegou a passar em uma entrevista de emprego americana, mas não pôde seguir adiante por falta de pré-requisitos do visto H1B, sorteado por loteria. O caminho que de fato funcionou foi diferente: dentro da própria empresa em que já trabalhava no Brasil, buscou a transferência internacional, aprovada com o visto L1.
"Eu fiz literalmente mestrado e bacharel junto [...] no meio do caminho eu fui coletando um outro pré-requisito, que era aprender inglês" por Julio de Lima
A esposa e a filha de Julio migraram com ele sob o visto de acompanhante L2. Ele destaca que mudanças de país que não são combinadas com o parceiro ou parceira tendem a gerar problemas de relacionamento — e cita o próprio caso como exemplo de alinhamento prévio, já que a esposa colocou como condição que o destino fosse especificamente a Flórida.
"Converse com o seu parceiro, com sua parceira, pra saber se ele ou ela realmente estão com essa mesma vontade que você tem de ir pra lá [...] eu já ouvi muitas pessoas que tiveram vários problemas com o seu relacionamento depois de terem mudado de país" por Julio de Lima
Julio percebeu uma divisão nítida entre QAs americanos: ou dominam ferramentas de automação e programação, ou ficam restritos ao que ele chama, com desagrado, de "teste manual" — termo que considera esvaziar o valor técnico da profissão. No Brasil, como líder de testes, ele buscava justamente profissionais que combinassem as duas frentes.
"Aqui é super comum as pessoas serem capazes de usar linguagem de programação, ferramentas de automação e serem boas QAs, ou elas não terem nada de programação e estarem completamente dentro dessa questão que eu odeio esse termo, que eles chamam de teste manual" por Julio de Lima
Um dos maiores choques culturais no ambiente de trabalho foi perceber que, ao contrário do Brasil, não existe pressão implícita para estender a jornada ou trabalhar fins de semana. Em compensação, o horário de almoço não é assegurado como direito, e ele se viu diversas vezes comendo na própria mesa entre reuniões.
"Por diversas vezes eu me vi trabalhando assim, só com um lanchinho aqui na mesa pra ir comendo, enquanto tá rolando todas as reuniões [...] isso pra mim foi um tanto chocante no começo" por Julio de Lima
"Você também se lembre que o seu primeiro salário vem depois de um mês, e pode ser que esse primeiro salário não seja o salário que vai ajudar você a pagar tudo que você teve de despesas até aquele momento, então não adianta ir pra lá com as mãos a banano" por Julio de Lima