Sidenia Bezerra construiu uma carreira sólida no turismo, chegou a coordenadora em uma multinacional e, aos 30 anos, decidiu recomeçar do zero como estagiária em tecnologia. A conversa percorre o que motiva alguém a abrir mão de estabilidade conquistada, como foi o processo de autoestudo até a primeira oportunidade, e por que conhecimento de outras áreas nunca é desperdiçado quando se muda de carreira.
Sidenia começou a carreira em 2009, formada em turismo, e migrou para São Paulo em busca de oportunidades vindo do Nordeste. Depois de uma pós-graduação em gestão de projetos, trabalhou em hotelaria até ser convidada para uma vaga administrativa em uma multinacional, onde chegou a coordenadora. Foi ali, dando suporte técnico informal aos colegas, que descobriu afinidade com tecnologia — decisão que a levou a cursar uma faculdade técnica estadual em São Paulo e, mais tarde, a deixar o cargo de coordenação para estagiar novamente, começando do zero em programação. Hoje mantém a página Sidenia Dev, onde compartilha conteúdo introdutório de programação.
Sidenia deixa claro que a decisão de migrar não nasceu de necessidade, mas de uma sensação de estagnação. Ela já estava havia anos na mesma rotina de coordenação, sentindo que não aprendia mais nada, quando um colega apontou sua facilidade em resolver problemas técnicos simples de suporte. A virada veio de reconhecer que o conforto financeiro não compensava a insatisfação profissional.
"eu tava insatisfeita no meu trabalho, eu sentia que já tinha chegado numa rotina que eu não tava mais aprendendo nada, eu precisava fazer uma coisa diferente" por Sidenia Bezerra
Antes de encontrar o front-end, Sidenia relata que mal conseguia escrever um laço de repetição em back-end. A identificação veio de uma diferença prática: enquanto um erro de back quebra tudo, o front renderiza mesmo com falhas visuais — e foi esse retorno visual imediato que a fez decidir onde se aprofundar, ainda que hoje trabalhe com objetivo de se tornar full stack.
"diferente do back, que se tiver um bígula faltando, não roda nada, o front renderiza. Errado ou não renderiza. Aí eu falei pronto, é isso que eu quero" por Sidenia Bezerra
Um dos pontos mais desenvolvidos da conversa é como a bagagem de áreas aparentemente desconexas da tecnologia se torna vantagem competitiva. Sidenia cita como sua vivência em turismo, administração e gestão de projetos poderia se aplicar diretamente a sistemas de ERP, controle de viagens corporativas ou gestão de negócios — reforçando que a dificuldade de conectar essas experiências diminui com a prática.
"eu posso hoje ter melhores envolturas, talvez para desenvolver um RP que envolve a parte de administração, também que envolve a parte de impostos, eu posso ter desenvoltura para, nesse RP, implementar alguma ferramenta para controle de viagens executivos de uma forma melhor também, então eu sempre tento conectar tudo que eu aprendo" por Sidenia Bezerra
A conversa não trata a transição como uma trajetória apenas de esforço técnico. Sidenia relata situações de desconforto na faculdade, onde colegas bem mais jovens a tratavam como destoante do grupo por já ter 30 anos, além de episódios explícitos de discriminação de gênero em ambientes de trabalho com comitês majoritariamente masculinos. Ela reforça que lidar com isso exige resposta educada, mas firme, sem transformar o comportamento alheio em problema pessoal.
"já fui discriminada por ser mulher sim na programação em alguns cenários que não cabe entrar, já fui discriminada por ser mulher em outros lugares que eu trabalhei porque tinham comitês que só tinham homens e eu lá de mulher" por Sidenia Bezerra
"prepare-se um pouco mas não espere muito, porque é melhor você sair, você tentar algo novo para ser mais contente, talvez, para se encontrar" por Sidenia Bezerra