O inglês é sonho de muitos e pesadelo de outros tantos — principalmente para quem cresceu ouvindo falar só do verbo to be. Neste episódio, duas convidadas encaram esse bloqueio de ângulos diferentes: Karen Guimarães, professora de inglês há mais de 20 anos, e Ingrid Santos, programadora que trocou o Brasil por Dublin em busca de imersão total no idioma. A conversa passa por vergonha de errar, sotaque, imersão cultural e o paralelo nada óbvio entre aprender inglês e aprender a programar.
Karen Guimarães é formada em pedagogia e dá aulas de inglês há mais de 20 anos, já tendo passado por escolas como a Berlitz e por aulas particulares voltadas a adultos e empresários — inclusive já foi professora de um dos hosts do podcast. Ingrid Santos trabalha como programadora desde 2010 e, em 2018, decidiu se mudar para Dublin, na Irlanda, onde vive e trabalha até hoje. A dupla trouxe ao episódio a visão de quem ensina o idioma e a de quem precisou aprendê-lo sob pressão profissional, incluindo a experiência de fazer entrevistas de emprego e reuniões inteiramente em inglês.
Karen e Ingrid concordam que a maior dificuldade não está nas regras do idioma, mas no bloqueio emocional de abrir a boca e arriscar. Karen relata o caso de uma aluna que saiu chorando da sala depois de errar a pronúncia de uma palavra algumas vezes — mesmo com a professora corrigindo da forma certa, sem nenhuma intenção de constranger. Ingrid reforça que esse travamento aparece tanto para quem está aprendendo no Brasil quanto para quem já mora no exterior.
"Eu acho que todo mundo tem esse bloqueio, né? E comigo também não foi diferente." por Ingrid Santos
Karen explica que o ensino de inglês vem mudando de um modelo obcecado por gramática perfeita (verbo to be, present perfect) para a ideia de língua franca: o objetivo é a comunicação, não a perfeição. Ainda assim, ela pondera que certas pronúncias importam de verdade — confundir "rabbit" com "habit", por exemplo, muda completamente o sentido da frase. A orientação prática que ela passa aos alunos é se permitir errar sem travar no meio de uma reunião ou apresentação.
"Você tá no processo de estudo, né? A gente quer que você aprenda, mas que se você tiver numa hora de uma reunião e você errar, relaxa, baby." por Karen Guimarães
Ingrid conta que trabalha em Dublin com colegas de origens muito diferentes — franceses, alemães, indianos — e que cada um carrega seu próprio sotaque ao falar inglês, sem que isso impeça a comunicação. Ela cita o próprio sotaque brasileiro (a tendência de terminar palavras com "i") como exemplo de algo que não atrapalha o entendimento. A conclusão prática: não vale a pena se cobrar por um sotaque americano ou britânico perfeito logo de cara.
"As pessoas vão te entender, não tem a necessidade de se cobrar tanto num primeiro momento de, nossa, eu preciso ter um accent americano ou um accent britânico." por Ingrid Santos
Ingrid descreve como, antes de se mudar para a Irlanda, criou sua própria imersão: lia livros infantis emprestados, anotava palavras novas em post-its colados na parede do quarto e assistia à série Friends duas vezes — uma com legenda em português, outra totalmente em inglês. Já em Dublin, contar com uma colega de casa francesa (que forçava conversas em inglês mesmo entre brasileiros) acelerou ainda mais o processo. Karen complementa com a explicação de como o cérebro processa o idioma: no início, a pessoa escuta em inglês, traduz mentalmente para o português, formula a resposta e traduz de volta — um processo lento que só se encurta com exposição repetida.
"Isso só acontece por conta da imersão. Mesmo que você não tenha oportunidade, quando eu comecei a estudar inglês, eu comecei um ano antes de vir pra cá." por Ingrid Santos
Ambas concordam que dá para aprender inglês muito bem sem sair do Brasil — Karen cita alunos e ex-professores de TI que nunca deixaram o país e conduzem reuniões em inglês sem dificuldade. Ainda assim, para Ingrid, a decisão de se mudar valeu a pena por outro motivo além do idioma: a experiência de se testar em um cenário totalmente novo, aprender a lidar com situações do dia a dia (ir ao médico, tirar uma carteira de motorista) e ganhar confiança pessoal ao longo do processo.
"Eu não acho que é necessário você sair do Brasil pra aprender inglês. Eu conheço, e tenho muitos amigos que falam inglês e nunca saíram do Brasil." por Ingrid Santos
"Você aprendeu uma linguagem de programação pra se comunicar com o quê? Com a máquina. Você já tem um outro idioma, porque o inglês é só mais um." por Ingrid Santos