Fernanda Voltan, idealizadora do Severinas — plataforma de serviços de manutenção com mão de obra 100% feminina —, contou a trajetória que a levou de uma anotação em um caderno até um aplicativo com dezenas de prestadoras ativas. A conversa passou pela sua formação em marcenaria, pela ideia que nasceu numa reunião de trabalho, e por uma tese que ela repete sempre: nenhuma ideia precisa nascer como aplicativo.
Fernanda Voltan se formou em marcenaria pelo Senai Roberto Simonsen entre os 14 e os 16 anos, depois de conhecer o curso por acaso e se identificar com a marchetaria. Trabalhou no ramo de ferragens e madeiras e, mais tarde, migrou para o setor financeiro, onde atuava em um banco quando teve a ideia do Severinas, em 2018. Não é desenvolvedora nem programa — hoje o time é formado por ela, à frente da parte comercial e de negócios, e dois desenvolvedores que cuidam do produto. O Severinas já recebeu apoio da Cielo e mentoria do GetNinjas, e hoje conta com prestadoras ativas em São Paulo e outros estados.
Fernanda estava em uma reunião executiva no banco onde trabalhava quando conheceu a história de uma prestadora de serviços de manutenção que subia parede e fazia reparos com uma sócia. A trajetória dessa mulher a fez lembrar da própria experiência com marcenaria e do quanto era incomum ver outras mulheres na área. Naquele mesmo momento, ela escreveu no caderno de trabalho: aplicativo, serviço de manutenção, mão de obra feminina. Foi só isso — mas o suficiente para decidir agir.
"No meu caderno do trabalho, eu escrevi na folha, aplicativo, serviço de manutenção, mão de obra feminina. Escrevi somente isso e saí daquela reunião pensando: nossa, eu preciso tirar isso do papel." por Fernanda Voltan
Antes de pensar em tecnologia, Fernanda testou se a dor que via fazia sentido para outras pessoas. Perguntou à sua volta como era a experiência com serviços de manutenção e ouviu relatos de atrasos, ausências e desconforto — principalmente de mulheres que moravam sozinhas e se sentiam inseguras com prestadores homens em casa. Esse processo de checagem, feito antes de qualquer decisão técnica, foi o que deu segurança para seguir adiante.
"O meu primeiro teste foi de fato perguntar pras pessoas que estavam à minha volta como que era a experiência delas com serviço de manutenção." por Fernanda Voltan
A primeira aposta de Fernanda foi buscar prestadoras em escolas técnicas de marcenaria, já que ela mesma vinha desse caminho. A hipótese não se confirmou — ninguém apareceu. Foi só quando alguém do time lembrou que a própria diarista sabia fazer pequenos reparos que a equipe encontrou o público certo: mulheres que já prestavam serviços domésticos e tinham interesse em ampliar a renda com manutenção.
"Essa hipótese não está se cumprindo, vamos criar outras hipóteses (...) a gente já tinha duas [prestadoras], e aí o que eu pensei: vamos para as diaristas." por Fernanda Voltan
Mesmo tendo escrito "aplicativo" na primeira anotação, o Severinas começou como uma lista em um documento do Word, compartilhada por WhatsApp. Só depois de comprovar que havia demanda e oferta reais é que a lista virou uma URL, depois um PWA, e só bem mais tarde um aplicativo completo. Para Fernanda, esse é o ponto central de qualquer ideia: o formato final é uma consequência da validação, não o ponto de partida.
"Por mais que você escreva, como eu fiz no passado, 'aplicativo', ele pode até se tornar um aplicativo, mas ele não nasce aplicativo." por Fernanda Voltan
Como não é desenvolvedora, Fernanda contou desde o início com pessoas que se juntaram ao projeto por acreditarem na ideia, não por remuneração. Um desenvolvedor que hoje é sócio construiu a primeira URL e, depois, o aplicativo; uma designer estruturou toda a experiência visual. Nenhum dos dois foi pago para isso — entraram porque viram a ideia já em movimento.
"Ninguém do time gastou pra ter um desenvolvedor, pra pagar um desenvolvedor pra fazer aquele aplicativo, e nem pra ninguém do time pagou pra ter uma pessoa pra fazer todo layout." por Fernanda Voltan
"Uma coisa é alguém tá com o carro quebrado ali na rodovia, parado esperando ajuda. Ninguém para pra ajudar. Outra coisa é quando a pessoa mesmo, sozinha, começa a empurrar o carro." por Fernanda Voltan