Yuri Marcel é analista de sistemas havia dez anos quando decidiu desenvolver seu primeiro game mobile sozinho — do zero à publicação na Google Play. A conversa passeia por como uma carreira construída em cima de gestão de times, C# e bancos de dados relacionais se traduziu (com adaptações) para o universo da Unity, e por que colisões em 3D são, nas palavras dele, "um inferno".
Yuri Marcel é formado em Ciência da Computação pela Unifor, com pós-graduação em arquitetura de sistemas para internet. Atua como analista de sistemas e líder técnico dos times de desenvolvimento .NET na Controladoria e Ouvidoria Geral do Estado do Ceará, onde administra sistemas críticos de execução financeira e orçamentária do governo estadual. Anos antes, já havia empreendido em uma empresa de desenvolvimento de sites, período em que construiu um framework próprio de persistência de dados para contornar limitações do Entity Framework da época. Foi esse mesmo conhecimento — reaproveitado e adaptado — que sustentou a arquitetura de dados do seu primeiro jogo, o Save My Girl, desenvolvido sozinho em Unity e publicado na Google Play.
Antes de escrever a primeira linha do jogo, Yuri aplicou as mesmas ferramentas que já usava para liderar times de desenvolvimento corporativo. Um quadro Kanban no Trello permitiu segregar atividades, visualizar o que estava pendente, parado ou impedido, e manter uma visão macro do progresso — mesmo trabalhando sozinho. Essa disciplina de gestão, segundo ele, foi tão determinante quanto qualquer conhecimento técnico específico de jogos.
"Gestão de projeto. Isso aí foi muito importante, cara. Utilizei bastante aí no desenvolvimento do meu primeiro jogo." por Yuri Marcel
Enquanto boa parte dos desenvolvedores mobile recorre a arquivos JSON para armazenar progresso do jogador, Yuri usou seus dez anos de bagagem com bancos relacionais para adotar SQLite, modelando entidades de negócio como personagem e inimigo com herança e abstração. Ele foi além: reaproveitou o conceito de um framework de persistência que havia construído em 2012 para projetos tradicionais, adaptando-o às tecnologias atuais para automatizar a criação de tabelas e colunas a partir das classes do jogo.
"Eu utilizei um banco bem simples, o SQLite. Com ele, é um banco relacional. E eu consegui criar minhas entidades de negócio." por Yuri Marcel
Diferente de um jogo 2D com sprites fixos, trabalhar em três dimensões significa lidar com gravidade, atrito e massa de forma constante. Um dos bugs mais custosos surgiu quando a massa do personagem era grande demais em relação ao colisor de um objeto do cenário, fazendo o personagem atravessar paredes e cercas — problema que só foi resolvido depois de investigação nas propriedades físicas dos objetos na Unity.
"Só pra concordar com o tio, cara, colisões é um inferno, no desenvolvimento de jogos." por Yuri Marcel
A receita do jogo veio de três frentes: anúncios exibidos entre partidas, vídeos recompensados de trinta segundos em troca de moedas gratuitas, e compras diretas de itens via Google Play. Yuri foi enfático sobre o risco de exagerar: um jogo excessivamente punitivo empurra o jogador para desinstalar e procurar outro título gratuito no mercado. A estratégia de vidas limitadas — que se renovam com o tempo ou podem ser compradas — foi pensada justamente para não comprometer a experiência.
"Você tem que manter um nível de balanceamento aí e manter uma atratividade dentro do seu jogo." por Yuri Marcel
Questionado sobre como conciliou o desenvolvimento com uma rotina de trabalho de oito horas, estudos e treinos físicos, Yuri descreveu um método simples: sessões diárias de duas horas, cada uma fechada com um commit no GitHub, sem cobrar de si mesmo mais do que isso. Foi esse ritmo constante — não picos de dedicação — que levou o projeto da ideia à publicação na loja em cinco meses.
"Eu fui fazendo isso, todo dia 2 horas por dia, e cara, foi incrível que pareça, em 5 meses eu consegui desenvolver o jogo completo subindo a Play Store." por Yuri Marcel
"Não tem satisfação melhor do que você ver os seus projetos sendo jogados e apreciados por outras pessoas, isso daí é imensurável, esse valor." por Yuri Marcel