Raquel Aquila se formou em história com o plano de seguir a carreira acadêmica, mas encontrou um mercado difícil para recém-formados e um desespero pós-faculdade que a levou a repensar tudo. A conversa percorre a hesitação entre veterinária, história e tecnologia, e como ela reconstruiu a própria segurança profissional do zero, em uma área que nunca tinha considerado. No caminho, fica claro que a bagagem de uma formação em humanas pode se tornar um diferencial real dentro da tecnologia, e não um peso a ser justificado.
Raquel se formou em história depois de cogitar medicina veterinária, motivada por professores que a inspiraram ainda no cursinho. Ao concluir a faculdade em 2019, enfrentou dificuldade para entrar no mercado de trabalho como professora e viveu um período de indecisão até uma amiga apresentar a área de teste de qualidade de software. Sem nenhuma experiência técnica prévia, conseguiu uma entrevista, foi contratada e hoje segue construindo carreira em QA, com planos de investir em certificações e uma graduação na área.
Raquel descreve o período logo após a formatura em história como um momento de pressão crescente: família e amigos perguntando sobre os próximos passos, dificuldade real de conseguir uma vaga de professora e a sensação de estar perdendo tempo. Foi nesse contexto, no fim de 2019, que uma amiga comentou sobre a área de tecnologia — mais especificamente, teste de qualidade. A reação inicial foi de resistência, por associar tecnologia a matemática, algo que ela não considerava seu forte.
"No final do ano de 2019, mais pro começo de 2020, conversei com uma amiga e ela me falou sobre a área de tecnologia. E aí eu pensei, falei, cara, tecnologia matemática?" por Raquel Aquila
Um dos pontos mais desenvolvidos da conversa é a forma como Raquel descreve o processo psicológico de qualquer mudança de carreira: primeiro a vergonha de sentir que perdeu tempo na formação anterior, depois o desconforto de explicar a mudança para os outros, e por fim a insegurança técnica no novo emprego. Ela reconhece que superar essas fases exige tempo e disciplina de estudo — não é uma virada automática.
"Eu passei por essas três fases e aí quando eu cheguei nessa fase do meu primeiro emprego na área de QA, eu tava já do terceiro ponto, que era a insegurança mesmo." por Raquel Aquila
Raquel identifica três habilidades concretas herdadas da formação em história: perda da timidez ao falar em público (fruto de apresentações constantes na faculdade), o hábito de ser crítica e questionar verdades absolutas, e a interpretação de texto aplicada à leitura de requisitos e bugs. Ela conecta diretamente a ideia de que "não existe uma verdade em história" com a mentalidade de teste de que nenhum software está livre de bugs.
"Não existe um software que não tem um bug. [...] a gente trabalha com quanto a gente consegue encontrar e quanto a gente consegue deixar o mais próximo do 100%." por Raquel Aquila
Ao ser questionada sobre lidar com o fato de a tecnologia ser uma área com maioria de homens, Raquel pondera que a área de história, apesar de humanas, também tinha maioria masculina entre os profissionais — o que já a havia preparado para não deixar essa proporção abalar sua segurança. Ela relata que, na prática, nunca foi tratada de forma diferente por ser mulher nos lugares por onde passou, mas reforça que reconhecer o próprio conhecimento e ocupar o espaço de fala é um processo consciente, inclusive entre mulheres, porque as construções de gênero atravessam a todos.
"Eu não posso deixar essa ideia [...] da mulher frágil, de não ser formada, tomar conta de mim." por Raquel Aquila
"Vergonha para mim seria você aceitar, você ter a chance de mudar e não mudar, simplesmente aceitar." por Raquel Aquila