Jean Andreatta começou a programar ainda adolescente, como técnico em processamento de dados, e hoje comanda a UNC Software, empresa de ERP voltada para indústrias. A conversa percorre a transição do CPF para o CNPJ, os acertos e erros de montar uma sociedade e as dificuldades reais — nem sempre visíveis de fora — de tocar um negócio de tecnologia no dia a dia.
Jean Andreatta é diretor da UNC Software (à época da gravação, Unicode Software), empresa de ERP para indústrias — com foco nos setores de telha e plástico. Vem de uma família de empreendedores do ramo metalúrgico e começou a trabalhar cedo, ainda como torneiro mecânico, antes de escolher o curso técnico em processamento de dados que o levou à programação. Estagiou e trabalhou como desenvolvedor em empresas de ERP antes de fundar, em 2013, o que viria a ser a UNC Software — inicialmente com três sócios programadores e um implantador, hoje reduzido a uma sociedade de duas pessoas. Deixou o emprego formal em dezembro de 2016 para se dedicar em tempo integral à própria empresa.
Antes de existir CNPJ, Jean já cobrava uma mensalidade por um sistema que ele mesmo instalava nas máquinas dos clientes — tratando aquilo como renda extra, sem plano de transformar em negócio. A virada veio quando a demanda cresceu mais rápido do que ele conseguia atender sozinho, ainda empregado como desenvolvedor em outra empresa. Ele identifica três momentos que, juntos, o levaram a sair do emprego: a percepção de que aquilo já era um negócio de verdade, a ajuda inesperada de um ex-empregador que topou recontratá-lo sabendo que ele sairia assim que desse certo, e a constatação de que não dava mais para dividir atenção entre dois lugares. A decisão final também passou por uma conversa com a avó, que resumiu o dilema em uma pergunta simples.
"Ela perguntou uma coisa, assim, pra mim, ela falou assim, Jean, se não der certo, o que você vai fazer? Eu falei assim, ah, se não der certo, eu volto a trabalhar como programador. Ela falou, e se der certo, você vai realizar um sonho. Então, eu não sei porque você tá em dúvida ainda." — Jean Andreatta
A primeira sociedade da UNC Software nasceu de necessidade de mão de obra, não de estratégia — quatro pessoas dividindo cotas para conseguir programar depois do expediente e nos fins de semana. Um dos sócios saiu logo no início, numa negociação que Jean descreve com humor (a cota dele valeu "uma mesa e três cadeiras"). Com o tempo, e olhando para trás, ele chegou a uma regra mais clara sobre o que buscar em um sócio: alinhamento de visão de negócio e complementaridade de habilidades, não repetição do mesmo perfil.
"Acho que são duas principais necessidades que você deve buscar no sócio. O primeiro ponto é visão — se vocês não tiverem a mesma visão, não tem o que fazer. E o segundo ponto é a questão de skill complementar." — Jean Andreatta
Um dos temas mais recorrentes da conversa é a diferença entre lucro contábil e crescimento real do negócio. Jean explica que, nos primeiros anos, praticamente todo o dinheiro que entrava era reinvestido em equipamento, licenças e equipe — o que, na contabilidade, aparece como despesa e pode até gerar prejuízo no papel, sem significar que a empresa está indo mal. Ele resume essa escolha com uma frase que ouviu de terceiros e adotou como princípio de gestão.
"Você pode ser sócio rico, empresa pobre, ou empresa rica e sócio pobre. Você pode pegar todo dinheiro que sobra no CNPJ para o CPF, certo? Aí você vai ter uma empresa pobre e um sócio rico, ou você pode pegar todo dinheiro que sobrou no CNPJ e manter no CNPJ. Aí você vai ter empresa rica e sócio pobre." — Jean Andreatta
Quando perguntado sobre as tretas do dia a dia, Jean aponta dois desafios que considera mais difíceis do que qualquer problema técnico ou financeiro: tomar decisões sozinho, sem ter a quem perguntar, e construir uma cultura de empresa que realmente se sustente na prática — não só no discurso do fundador. Ele relata como formalizar os valores da empresa, algo que fazia de forma implícita, se tornou necessário com a chegada do trabalho remoto na pandemia, quando novos funcionários passaram a entrar sem nunca ter vivido o ambiente presencial da equipe.
"O principal desafio que eu enxergo é você conseguir lidar com você mesmo. Quando eu tava como funcionário, eu tinha alguém pra perguntar. [...] A segunda dificuldade eu acho que é criar um ambiente que você passe pro seu funcionário o que você quer de verdade — é criar uma cultura da empresa. Eu acho que isso é o mais difícil." — Jean Andreatta
"A maior satisfação que eu tive foi quando eu parei, olhei e falei assim: cara, eu tô com seis funcionários — você tá colocando comida na mesa de seis famílias." — Jean Andreatta