Jefferson Cont, UX Designer, conversa sobre a distinção entre UI e UX — duas siglas que costumam ser tratadas como sinônimos, mas que representam camadas diferentes do trabalho de construir um produto digital. A conversa passa pela parte visual (grid, tipografia, microinterações, design system), pela parte de pesquisa e comportamento (entrevistas com usuários, acessibilidade, gamificação) e chega à trajetória profissional e acadêmica de quem migrou do design gráfico impresso para a experiência do usuário.
Jefferson Cont começou a carreira longe do digital, trabalhando com editoração e diagramação em editoras, hospitais e agências de publicidade — produção de livros, apostilas, jornais internos e sinalização impressa. A formação segue o mesmo caminho: um semestre de análise e desenvolvimento de sistemas, abandonado por não se identificar com a lógica de programação, seguido por uma graduação de quatro anos em design gráfico com ênfase em tipografia, onde cursou uma optativa de ergonomia que plantou o interesse por usabilidade. A migração para UX aconteceu depois, primeiro como analista, depois como pleno, complementada por uma pós-graduação de um ano e meio em UX Design. Hoje atua como analista de UI/UX, trabalhando lado a lado com squads de desenvolvimento em ciclos de sprint.
Jefferson traça a linha entre as duas siglas de forma direta: UI é tudo que é visual — grid, tipografia, microinterações, o catálogo de componentes reunido em um design system. UX foge do visual e entra em pesquisa, acessibilidade e gamificação. É comum começar a carreira fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, principalmente no mercado brasileiro, onde vagas generalistas ainda predominam.
"UI, user interface, é a parte mais ligada ao visual ali, né? A parte gráfica, o que você vê nos sites... É a parte que mexe muito com grid, né? Com a construção, como você vai planejar as coisas ali no aplicativo." por Jefferson Cont
Para entender o modelo mental do usuário e validar hipóteses de negócio, a pesquisa de guerrilha é apontada como alternativa barata e acessível: testar um protótipo com pessoas dentro da própria empresa ou com o público-alvo, sem a necessidade de grandes amostras. O ponto central é identificar corretamente quem é esse público antes de testar — testar com quem não faz parte do público-alvo enviesa qualquer resultado.
"Não precisa ser nada gigantesco, sabe, testar com 100 pessoas, não? Testar com uma, com cinco pessoas, assim, é um número muito legal." por Jefferson Cont
A parte de acessibilidade aparece como um dos pontos mais negligenciados da profissão. Contraste, tamanho de fonte e comportamento da interface diante de ajustes de acessibilidade do sistema (como fonte ampliada) são citados como exemplos de decisões que, quando ignoradas, quebram a experiência de quem mais precisa dela — pessoas com baixa visão, idosos ou usuários com dificuldades motoras.
"Essa parte de acessibilidade é muito importante mesmo, né? Não tem todo cuidado devido... é trazer esse produto para uma base maior ali de pessoas, levando em conta essas limitações que existem." por Jefferson Cont
Ao ser questionado sobre o valor de um portfólio para quem quer entrar na área, Jefferson descreve um problema recorrente: interfaces "pixel perfect" postadas em redes como o Dribbble, sem qualquer registro do raciocínio por trás delas. Para quem recruta, entender a pesquisa, o público-alvo e os rascunhos que levaram àquela solução pesa mais do que o acabamento visual.
"O recrutador, além de ver a tela, a interface, muitas vezes ele quer ver o processo de como você chegou naquilo... O processo é o que conta." por Jefferson Cont
Questionado sobre os obstáculos ao longo da carreira, Jefferson aponta a resistência das empresas em enxergar UX como estratégia de negócio, e não apenas como a entrega de telas bonitas. Convencer que cuidado com experiência do usuário se traduz em resultado financeiro é descrito como o maior desafio do dia a dia, mais do que qualquer dificuldade técnica.
"Eu acho que as maiores dificuldades assim são na parte cultural mesmo, sabe, de tentar mudar essa visão da empresa pra você mostrar que UX vai agregar valor." por Jefferson Cont
"Não adianta acreditar nessas promessas de tipo você vai fazer um bootcamp de dois finais de semana e já vai sair trabalhando. Não caiam nessa, sabe? Bootcamp não faz milagre." por Jefferson Cont